O primeiro dever de Adão foi “o de chamar as coisas pelos nomes”, para, então, reconhecê-las. Uma certa parcela destas definições está, por assim dizer, algemada com a humanidade no processo de realização histórica. Isto é, desfrutam de um caráter supracultural e, portanto, independem da estrutura política, social e econômica. À medida que o homem existe, elas sine qua non existem.

Uma dessas definições é a de poder. Conceito de tão gigantesca valia que, sem ele, nenhum objeto presente no universo das humanidades é passível de cabal compreensão. O poder, como aponta o ilustre Olavo de Carvalho, nada mais é do que uma possibilidade de ação concreta. O escravo não tem poder sobre seu mestre por aquele nada poder fazer sobre esse. Se na física de Newton, a gravitação universal é a força que produz movimento, o poder é a força da gravitação que atua no universo político. A partir dessa proposição, uma indagação é instantaneamente deduzida: quem manda no mundo?

Esse é, quem sabe, o problema mais laborioso e intricado presente no estudo das relações humanas. Quem é o grande marionetista que do mundo e das coisas faz meros fantoches? É aí que as divergências entre esquerda e direita parecem brotar. Segundo o grande guru da canhotada Karl Marx, são as relações econômicas de produção (infraestrutura) que ditam todo o resto (superestrutura). Isto é, as instituições, tradições, cultura, religião, ciência e tudo aquilo que não perambule sobre o objeto de estudo da ciência da escassez é apenas uma manifestação imediata das relações presentes em cada modo de produção. Assim, é possível deduzir que é no topo dessas relações econômicas que avistamos o ventríloquo que da sociedade tem sua voz interna manifestada e, portanto, a sentença “as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante” se torna passiva de compreensão. Apesar de pobre e grosseira, a essência dessa crença parece conservar-se até mesmo em mentes que, ao escutar o nome de Karl Marx, calafrios sofrem, atuando no pensamento público com uma força tão penetrante que senso comum parece ter virado. Pode não se apresentar nestes exatos termos, todavia, a crença de que o status quo é a manifestação concreta dos interesses dos detentores do grande capital é amplamente aceita.

Entretanto, o poder econômico não é um poder em si. Esse fato, apesar do elevado grau de veracidade que carrega, parece passar desapercebido por todas mentes que da infanto-juvenil mitologia socialista partilham. A riqueza nada mais é do que um direito para com bens nos quais terceiros valorizam. Essa condição obviamente não é passível de auto-sustentação. Carece da atuação do que Max Weber chamou de instituições de caráter dominador. Desde um arcabouço jurídico que tenha a capacidade de guarnecer esse direito até um arcabouço moral sólido que possibilite o respeito para com o mesmo. É justamente pela parcialidade dessas instituições que, durante toda história, os povos hebreus de um lado para o outro fugiam. Na Alemanha Nazista os mais endinheirados banqueiros judeus eram perseguidos, e o grande capital que detinham pouco ajudou em relação ao seu futuro estado de servidão. O poder econômico, portanto, baliza entre os poderes cultural e político e, sem esses, nada é.

A liturgia do poder, portanto, não pode ser compreendida apenas por vias econômicas. É nesse fato que se descortina a deficiência do ideário progressista. Mas afinal, quem são os donos do mundo?

Os donos do mundo são aqueles dotados da capacidade de encabrestar as instituições e subjuga-las ao seu bel-prazer. Para isso, tanto de meios belicosos quanto de meios persuasivos necessitam. É apenas aí que o capital, de mãos dadas com a cultura, entra em jogo.


Autor: Gabriel B. Huppes é estudante de Ciências Econômicas e escreve para o site do Clube Farroupilha quinzenalmente aos sábados.

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