Minimalismo educacional: ou, por que abandonar a escola foi a melhor decisão que tomei na vida

A foto acima representa a exata sensação que eu tinha todas as manhãs, de 1997 até 2003.

Esse foi o período no qual eu frequentei regularmente a escola. Com exceção de dois anos (2001 e 2002), os demais foram sempre no período da manhã.

O mais irônico da época é que eu nunca consegui entender por que algo tão chato e maçante era vendido como sendo a única maneira de sermos alguém na vida. “Vá para a escola ou passe a vida inteira sendo um vagabundo analfabeto”, era o que diziam a maioria dos pais, tios e outras pessoas da minha família. E isso era falado como se a escola fosse a única forma existente de uma pessoa aprender algo.

Ela nem sequer era a melhor.

Minha educação (in)formal

Darei logo o spoiler inicial do texto: a coisa mais útil que aprendi em todos os meus anos escolares foi a escrever. Coincidentemente, era a única coisa que eu não conseguia aprender sozinho. E só. A utilidade escolar pra mim acabou exatamente aí.

“Ah, mas você também aprendeu a ler, não foi?” Sim, mas totalmente fora da escola. Meus maiores professores de leitura foram a estante da minha avó e o Sílvio Santos.

Sim. O Sílvio do SBT, ele mesmo.

A estante da minha avó continha todos os livros que eu comecei a folhear quando era criança. Detalhe: apenas 6 deles eram livros infantis.

Ainda me lembro da velha enciclopédia Barsa que tinha na estante. Para quem não conhece, a Barsa era uma espécie de avó da Wikipedia, e era praticamente a única forma de pesquisa que era possível acessar nos anos 90. E foi a minha porta de entrada para a leitura e para o meu interesse infantil por física, ciências e letras (sendo que a escola quase destruiu os dois primeiros.

E onde o Sílvio Santos entra nessa história? De forma simples, ele foi o meu primeiro professor de leitura. Óbvio que não de forma direta, mas sim através de um programa que ele apresentava, o Roletrando.

Sabe o “Roda a Roda”, programa da SBT que passa hoje em dia? Ele é praticamente uma cópia do Roletrando. Igualzinho, sem tirar nem por. E foi lá onde aprendi a soletrar, identificar palavras, sílabas, e, consequentemente, a ler.

Educação formal

Nos primeiros anos de escola – que não entraram na contagem do início do texto – até que a coisa não era tão ruim. Éramos deixados livres pra brincar, fazer as atividades que quiséssemos. Não tinha nada de cálculos ou teorias chatas, era basicamente diversão. E isso acabou tornando a pré-escola uma época bastante divertida.

Quando haviam as atividades formais, como leitura ou jogos de perguntas, eu sempre tirava de letra. Como já estudava de outras formas, acabava ficando à frente da maioria das crianças da turma.

Houve professores que até insistiam em dizer que eu era superdotado – o que obviamente não era verdade. Eu apenas estudava fora do ambiente escolar, coisa que muitos não faziam na época. E me divertia muito mais, pois estudava o que queria.

Porém, isso mudou ao entrar na escola regular. Ao invés de procurar temas que me interessavam, precisei estudar o que os professores mandavam. O estímulo de procurar formas novas de solucionar problemas foi substituído pela rigidez de um currículo escolar que, descobri depois, nem os professores tinham permissão de alterar. As coisas legais que a Barsa trazia sobre física deram lugar a cálculos chatos que, apesar de úteis, eram ensinados de forma totalmente maçante, sem nenhuma didática ou forma de fazer aquilo ser atraente.

E o inglês? Era, sem nenhum exagero, a maior tortura de todas as disciplinas. Não que eu não gostasse, mas sim porque todos os anos era sempre o mesmo assunto: verbo to be ou alguma coisa ridiculamente básica. Considerando que eu aprendia inglês desde os 6 anos por meio de videogames (Resident Evil e Mega Man X <3) ficar anos estudando o mesmo conteúdo sempre foi maçante.

Em virtude disso, decidi largar a escola em 2003, e começar a estudar por conta própria. A despeito de todos os obstáculos que tive que enfrentar, descobri algumas coisas muito interessantes. Vejam abaixo.

Nada é melhor do que criar seu próprio aprendizado

O Brasil possui um currículo escolar altamente engessado. O que o MEC determina que seja ensinado deve ser adotado universalmente, desde a escola de alto padrão em São Paulo até a escola da zona rural no Acre.

Trata-se de um modelo rígido e altamente incompatível com as realidades e necessidade de cada aluno, de cada região. Uma forma de aprendizado descentralizada e voltada para as necessidades de cadapessoa é muito mais eficiente para manter um aluno interessado pelos estudos.

Matemática e física são matérias legais – apenas não mostram isso na escola

Quem nunca alegou que matérias como física e matemática são um saco, chatas e cheias de números? Minhas notas mais baixas durante os anos escolares eram exatamente nessas matérias.

Isso mudou drasticamente após eu conhecer assuntos como dinâmica dos fluidos, física teórica (física); topologia e matemática teórica (matemática), alguns dos campos de estudos mais loucos, mais incompreensíveis e mais insanos dessas matérias – e, consequentemente, mais legais também.

Qual a semelhança entre eles? Nada disso era ensinado pelos professores na escola.

A única coisa necessária na educação formal é o diploma

Eu não era formado no ensino regular até 2010. Nesse ano passei no vestibular para Psicologia, e quando fui fazer a matrícula descobri que precisava do comprovante de conclusão do ensino médio.

Só que eu nem tinha concluído o ensino fundamental! Sem brincadeira, eu não tinha concluído mesmo.

Tive 2 dias dados pela coordenação da UFPB para apresentar os documentos, ou perderia minha vaga. Então fiz a coisa mais sensata possível: me matriculei em um supletivo e fiz todas as provas exigidas. Em menos de 24 horas, “concluí” o ensino fundamental e o médio e pude ocupar minha vaga na universidade.

No modelo de ensino atual, pouco importa o que o aluno realmente consegue aprender. Devido ao diploma de conclusão ser obrigatório, muitos pais querem mesmo é ver o filho passar de ano, não importa se para isso precisem dar um certo suborno agrado à escola. Uma vez que só o diploma vale, não preciso necessariamente matricular meu filho na escola; é perfeitamente possível fazê-lo estudar em casa e, depois, levá-lo para prestar um supletivo e conseguir o diploma escola (é possível fazer isso até via o ENEM).

Conclusão

Deixar a escola de lado me permitiu focar na educação que realmente me interessava, deixando de lado todo o supérfluo que era ensinado (quem precisa de logaritmos?).

O sistema escolar atual, não só o brasileiro mas o de boa parte do mundo, é absolutamente defasado. Ele não estimula a criatividade e descoberta, mas apenas a memorização e decoreba de conceitos fixos e, em sua maioria, absolutamente inúteis no mundo real.

Foram essas duas conclusões que me levaram a tomar a melhor decisão da minha vida: estudar por conta própria.


Autor: Luciano Rocha, estudante de Psicologia e consultor financeiro.

Este artigo foi originalmente publicado no blog Walden III em 21 de Junho de 2017 e pode ser acessado aqui.