“A prosperidade do Ocidente foi gerada por seus próprios povos e não foi tirada de outros.” – Peter Thomas Bauer

Alguns socialistas não negam que as populações dos países desenvolvidos, nos dias de hoje, desfrutam de enorme riqueza. Porém, na defesa de suas ideologias, apresentam diversos contrapontos. Um deles é que o progresso dos países desenvolvidos não se deveu ao liberalismo econômico, mas a outros fatores – entre eles, a teoria da Exploração Internacional. Ou seja, o argumento de que os países ricos só ficaram ricos porque exploraram e ainda exploram os países mais pobres. De certa maneira, o Ocidente seria culpado pela pobreza dos países da “periferia do capitalismo”. É a teoria de que as nações subdesenvolvidas nunca vão conseguir se desenvolver, porque as desenvolvidas as impedem.

Charge representando a exploração internacional

Se o sistema econômico fosse um jogo de soma-zero, a teoria da exploração, em um contexto internacional, teria bastante sentido. A riqueza da Europa e da América do Norte seria proveniente do colonialismo, neocolonialismo, imperialismo e escravagismo. Os povos dos países pobres são explorados pelas multinacionais e pelo capital estrangeiro. As nações miseráveis ficam na pior parte da divisão internacional do trabalho. Elas vendem matéria-prima a preços baixos, que é usada pelas nações ricas para produzir produtos tecnológicos extremamente caros. A riqueza é continuamente drenada dos países “do Sul” para os “do Norte”.

Mas é uma falácia econômica a alegação de que para alguém enriquecer outrem tenha que empobrecer. Assim como eu posso ficar mais rico sem empobrecer alguém, muito pelo contrário, enriquecendo outras pessoas, uma nação pode se desenvolver sem diminuir o padrão de vida de outra, na verdade até aumentando-o. Isso é possível, naturalmente, com o aumento das atividades enriquecedoras: comércio, empreendedorismo, inovação e contínua especialização do trabalho. Em uma escala global, elas são capazes de elevar o padrão de vida de todas as classes e de todas as nações.

O INTERESSE DAS NAÇÕES INDUSTRIALIZADAS

O primeiro ponto a ser destacado é que, por razões econômicas, não é do interesse dos países ricos que os países miseráveis continuem miseráveis. Por “países ricos”, quero dizer toda a população desses países, o que inclui os empresários, os banqueiros, os capitalistas, os industriais e os empreendedores. Uma empresa só se sustenta vendendo produtos e serviços para os seus consumidores. Uma ascensão social dos mais pobres implica que as empresas lucrarão mais vendendo seus produtos para essa nova massa consumidora. Da mesma maneira, se os países miseráveis se desenvolvessem, eles passariam a realizar mais trocas comerciais com os países ricos e comprariam mais dos seus produtos, de maneira benéfica para ambos os lados.

O que traz mais riqueza para um país europeu: ganhar dezenas de milhões de euros em exportações para nações paupérrimas da África ou centenas de bilhões de euros em mercadorias vendidas para as grandes massas consumidoras dos EUA e de alguns países da Ásia? A África, por sinal, participa de apenas 2% do comércio mundial. Qual o interesse dos outros continentes que a situação continue assim? No ano de 2014, os Estados Unidos exportaram para todas as economias africanas o equivalente a 60 bilhões de dólares. A ilha de Hong Kong, que tem uma população 142 vezes menor que a africana, importou 62 bilhões de dólares dos estadunidenses [1]. Se a África prosperasse e aumentasse drasticamente o seu comércio internacional, isso também resultaria em um acréscimo de riqueza extraordinário para o resto do mundo.

É incoerente dizer que as nações desenvolvidas tem interesse em manter a pobreza das menos abastadas, porque isso significaria a ausência de lucros na venda de produtos para essas nações. Como o filósofo David Hume declarou em 1758:

“Não rezo apenas como ser humano, mas como cidadão inglês, pelo florescimento do comércio da Alemanha, Espanha, Itália e mesmo da França”. [2]

Peguemos o exemplo dos carros. A maioria dos países da África Subsaariana tem entre 5 a 20 automóveis a cada 1000 habitantes. Se essas nações passassem por um processo de desenvolvimento econômico acelerado e em uma década esse indicador subisse para 100 carros, as montadoras do mundo inteiro obteriam lucros enormes vendendo seus produtos para esses novos consumidores. Qual é então o atual interesse de empresas como a Hyundai, Fiat, Renault, Ford, Volkswagen, Chevrolet, entre outras tantas corporações, de que os países miseráveis continuem assim e nunca comprem carros novos? Absolutamente nenhum.

Por que a Apple e a Microsoft iriam querer que os indianos ficassem pobres para sempre, e nunca pudessem comprar seus computadores e smartphones? É um mercado potencial de centenas de milhões consumidores. A mineradora brasileira Vale não se beneficiou com o crescimento chinês das últimas décadas, aumentando enormemente suas exportações de minério de ferro? A Nike, a Puma e a Adidas não adorariam que os latino-americanos e os africanos passassem por um processo de elevado crescimento econômico, e começassem a comprar os seus produtos em maior quantidade?

Alguns podem alegar que os capitalistas não iriam querer o desenvolvimento do “terceiro mundo”, porque assim não teriam mais acesso à mão-de-obra barata proporcionada pelo mesmo. Naturalmente que as empresas, visando o lucro, querem economizar o máximo possível com seus funcionários, e essa é uma das razões para transferirem suas unidades de produção para os países mais pobres. Se um aumento da produtividade geraria um aumento dos custos salariais dos operários, aumentando as despesas da empresa, em compensação haveria um aumento das suas vendas, dado que as grandes massas teriam um crescimento no poder aquisitivo.

Certos cidadãos dos países industrializados ficam incomodados com o crescimento de outras nações, porque temem uma “concorrência desleal” com suas indústrias e suas empresas. Nos anos 80, o mundo temia o crescimento do Japão e de outros países do leste asiático. Montadoras americanas tradicionais, como a GM e a Chevrolet, ficaram preocupadas com a perda de mercado para empresas como a Toyota e a Honda. Nos dias de hoje, o grande fantasma é a China, que faz uma concorrência “agressiva” e “perigosa” – ou em outras palavras, oferece produtos mais baratos e por vezes de melhor qualidade.

Nesse caso, quem não quer o desenvolvimento dos países mais pobres são justamente os protecionistas, contrários ao livre-comércio, ao livre-mercado e à livre-concorrência. Eles têm uma visão precipitada, uma vez que se esquecem de que na medida em que os países em desenvolvimento acelerado tem um crescimento das suas exportações para os países ricos, também tem um aumento de suas importações dos produtos dos mesmos. Ignoram o fato de que o comércio beneficia a ambos os lados aos olhos daqueles que o praticam.

Certamente existem muitos outros argumentos utilizados para justificar a teoria de que os países pobres só o são assim porque foram e ainda são explorados pelos mais ricos. São proposições que vão muito além de uma simples indução de que é “interessante” para uma nação desenvolvida que as outras sejam pobres. Entre eles, os argumentos do colonialismo, do escravagismo, do imperialismo, do militarismo, da exploração de recursos naturais e da exploração econômica. Esses ficarão para os próximos artigos da série, acompanhe!


Confira os outros artigos da série: Parte II, Parte III, Parte IV.


Autor: Luciano Rolim é um empreendedor libertário, autodidata e escritor nas horas vagas. Possui um e-commerce de produtos libertários, a Atlas Galt, e também trabalha com investimentos em Startups.

Referências:

[1] – Dados do Bureau of Economic Analysis.

[2] – David Hume, Essays, Moral, Political, and Literary, parte II, ensaio VI: of the jealousy of trade, 1758.