Na segunda parte dessa série, dissertei sobre como o escravagismo e a dominação colonial não são razões plausíveis para crer que os países ricos só ficaram ricos porque exploraram os mais pobres. Sequencialmente, além do escravagismo e da dominação colonial, outro argumento é que os países ricos também teriam imposto as suas vontades e explorado o resto do mundo por meio do conflito armado e das guerras imperialistas. Não faltam exemplos para sustentar essa tese: a conquista francesa da Argélia, a Guerra dos Bôeres na África do Sul, a guerra do Ópio na China, a conquista europeia da América, África e Ásia, as intervenções dos Estados Unidos na América Central, as guerras no Oriente Médio e outros tantos conflitos.

IMPERIALISMO E MILITARISMO

Todos esses combates serviram, teoricamente, para a expansão dos mercados consumidores e a exploração de fontes de matérias primas. Sem o imperialismo e as guerras mundo afora, as nações ricas nunca teriam alcançado tal patamar de desenvolvimento.

Porém, as pessoas que acreditam nisso se esquecem de algo extremamente importante: guerras custam muito caro. Os governos que adotaram políticas imperialistas gastaram fortunas imensas para atingir seus propósitos. As guerras são dispendiosas, porque é necessário treinar, contratar, alimentar e pagar soldados, oficiais, médicos, engenheiros, cientistas e demais funcionários do exército. É necessário investir dinheiro na construção de infraestrutura, propaganda de guerra, logística de transporte, aquisição de matérias-primas, logística de comunicação, combustível e tecnologia militar. Uma quantidade enorme de recursos é utilizada na fabricação, compra e manutenção de armas, bombas, aviões, navios, tanques, canhões, munições, minas, granadas, submarinos, radares, etc.

O governo, como se sabe, não gera nenhuma riqueza. Quem paga pela existência do aparato militar é toda a sociedade, por meio de impostos mais elevados, altíssimo déficit público e inflação descontrolada. As guerras geram morte, destruição e consequências catastróficas para a sociedade, tanto materiais quanto psicológicas. É o maior desperdício de mão de obra, dinheiro, energia e recursos que pode existir. Por todas essas razões, é muito difícil que elas gerem mais riqueza do que perda, mesmo para as nações vencedoras.

Isso não significa, é claro, que todo mundo sai perdendo. Sempre haverá pessoas que se beneficiarão dos conflitos, como empresários fornecedores de armas para o governo, corporações atuantes no comércio exterior, cientistas patrocinados pelo estado, políticos propagandistas ou oficiais militares desejosos por poder. Porém, o cidadão comum – aquele que não tem nenhum laço com o poder público e só deseja viver sua vida em paz e liberdade – só tem a perder com qualquer guerra.

Tomemos por exemplo uma invasão do exército dos EUA em alguma nação do Oriente Médio, em “prol da democracia” ou para “combater o terrorismo”, enquanto na verdade o que está em jogo é o domínio de reservas de petróleo. Empresários fabricantes de armas com contratos com o governo certamente sairão beneficiados, assim como corporações petrolíferas com lobbies no congresso ou militares de alta patente sedentos por mais recursos financeiros. Para muitos esquerdistas, é graças a guerras desse tipo que o país consegue manter a sua economia estimulada. Nada poderia estar mais longe da verdade. A principal consequência econômica é o aumento do já combalido déficit público do governo, e o crescimento da quantidade de dívidas e impostos.

Ao longo de seus oito anos, a guerra do Iraque custou mais de dois trilhões de dólares para os americanos, e, no longo prazo, devido aos juros das dívidas, essa despesa subirá para mais de quatro trilhões. Durante o conflito, o gasto diário era de 300 milhões de dólares [1] [2]. Alguém ousaria dizer que esse evento estimulou a economia e foi benéfico para os americanos?

As colônias podem até ter sido uma maneira de explorar mais matérias primas e aumentar os mercados e as oportunidades de investimento. Porém, o que as metrópoles gastavam com a manutenção da marinha e do exército frequentemente ultrapassava qualquer lucro ou remessa financeira que elas recebiam de volta.

Na Primeira Guerra Mundial, por exemplo, as colônias foram mais um empecilho do que uma vantagem para a Inglaterra e a França. Enquanto a Alemanha estava totalmente focada no front europeu, os outros dois países gastaram grande parte de seus recursos mantendo seus exércitos, suas frotas navais e seu domínio ao redor do globo.

De uma maneira geral, as possessões eram mais uma questão de prestígio e status do que efetiva vantagem econômica. Após a formação da Alemanha, em 1871, seus governantes não mediram esforços nas décadas seguintes para conseguir domínios ultramar. Porém, eles não visaram adquirir colônias prioritariamente para promover o desenvolvimento econômico: elas não passaram de um mero escoadouro para a economia alemã. O objetivo principal era, na verdade, a busca pelo Weltmacht, isto é, o status de potência mundial [3].

Não é nenhuma surpresa que, após a Segunda Guerra Mundial, nenhuma outra potência além de Portugal e, em parte, a França, lutou para manter seu domínio colonial na África. E a razão disso é que os governantes europeus, no fundo, sabiam que esses domínios eram um ônus, e não um bônus para o desenvolvimento econômico. Com o fim da era da dominação europeia e a ascensão dos EUA e a URSS como as duas principais potências, já não havia muito sentido continuar despendendo recursos na pretensão de se obter qualquer tipo de prestígio e autoridade.

EXPLORAÇÃO É DISPENSÁVEL, A LIBERDADE ECONÔMICA NÃO

Há um segundo motivo pelo qual o imperialismo e o colonialismo não foram condições indispensáveis para o desenvolvimento dos países ricos. É o fato de que seria impossível que nações que nunca tiveram colônias, como a Áustria, a Suécia, a Noruega, a Islândia, a República Tcheca, a Dinamarca e o Canadá, pudessem ter se tornado desenvolvidas e prósperas caso a teoria da exploração estivesse correta. São países que cresceram graças à manutenção de uma economia livre e à solidez dos direitos de propriedade.

A Suíça é um caso particularmente interessante. É um país que, economicamente falando, nunca foi abençoado pela natureza: montanhoso, sem recursos naturais e sem acesso ao mar. Além disso, nunca foi “explorador”. A nação não entra em guerras há mais de duzentos anos, não possui nenhum exército profissional, e nunca teve qualquer tipo de colônia. Mas mesmo assim, hoje os suíços são um dos povos mais ricos do mundo, graças à liberdade econômica, estabilidade, pacifismo e livre-comércio. Devido à natureza essencialmente livre e voluntária das trocas comerciais, o capitalismo só pode prosperar e desenvolver o máximo do seu potencial em um ambiente estável e seguro. E isso não tem relação com guerras estatais criadas por burocratas e corporações.

Evidentemente, muitos argumentam que a Suíça só chegou nesse patamar porque é um paraíso fiscal, não podendo servir de exemplo para o resto do mundo. Isso pode até ter ajudado, porém a lavagem de dinheiro é uma prática que, no mundo, só tomaria grandes proporções na segunda metade do século XX. Não obstante, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, os suíços já eram o povo mais rico da Europa e o 2º do planeta, atrás apenas da Nova Zelândia [4].

Indo em direção totalmente contrária à afirmativa de que todos os países ricos só o são porque exploraram outros, a Nova Zelândia também é outro exemplo de uma nação que nunca teve uma colônia ou dominou outro país, e mesmo assim é uma das mais prósperas do mundo. Pelo contrário, os neozelandeses é que eram colonos da Inglaterra até 1907. E foi a adoção de boas políticas econômicas desde o século XIX – especialmente nos anos 1880, quando ocorreu um amplo programa de privatizações e redução da estrutura pública – que permitiu que a região fosse alçada ao topo dos rankings de riqueza e qualidade de vida no mundo.

Alguém teria a ousadia de chegar a um neozelandês e falar que a sua qualidade de vida não provém do seu trabalho, esforço pessoal e dedicação, mas sim de uma exploração que nunca existiu? O mesmo é válido para a Austrália, um território que tinha vários motivos para “dar errado”: geograficamente isolada do resto do mundo, colônia por mais de um século e local de destino de presos condenados.

Os exemplos continuam. Hong Kong nunca teve colônias. Na verdade, era um domínio britânico até 1997. Coreia do Sul, Singapura e Taiwan são todos territórios que no passado já foram dominados por ingleses ou japoneses, e hoje são bastiões do desenvolvimento tecnológico. Após a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha e o Japão estavam falidos e destruídos, e já tinham perdido todas suas colônias (a Alemanha, desde 1919). Isso não foi nenhum impedimento para que nas décadas seguintes esses países se recuperassem e retomassem a vanguarda da inovação e do crescimento econômico mundial.

No caso alemão em específico, alguns dizem que o país não serve de exemplo, porque ele só teria se recuperado graças ao plano Marshall, quando os Estados Unidos injetaram dinheiro na economia europeia no pós-guerra. Isso não tem qualquer embasamento estatístico, e o impacto dessa ajuda financeira sempre foi superestimado, especialmente para a Alemanha Ocidental.

Entre 1948 e 1951, os países europeus receberam 12,7 bilhões de dólares em ajuda, o equivalente, hoje, a algo como 125 bilhões. O PIB somado desses países*, na época, era de aproximadamente 183  bilhões. Isso significa que cada país recebeu anualmente, em média, um montante equivalente a 1,7% do seu PIB por um período de quatro anos [5]. Isso não é exatamente “uma grande propulsão para o desenvolvimento”.

O caso da Alemanha é mais interessante ainda, dado que o país recebeu um montante de apenas 1,5 bilhão de dólares, o que dividido por um período quadrienal, significa um montante de meros 0,85% do PIB por ano [6]. Também é válido lembrar que, por causa do revanchismo da guerra, os alemães ainda estavam sofrendo um processo de desmantelamento de suas indústrias, limitação da produção, revogação de patentes e confiscos de direitos autorais. Ou seja, a grande “ajuda” era minar as bases das indústrias dos alemães, e emprestar dinheiro para que eles comprassem bens dos Estados Unidos.

Se a economia alemã prosperou, foi porque Ludwig Erhard, um político que era um fiel adepto do livre mercado, assumiu o cargo de diretor da economia alemã em 1948. Ele fez uma reforma econômica que aboliu todos os controles e congelamentos de preços e salários, criou uma moeda mais estável, reduziu drasticamente a emissão de moeda e a inflação, e, corajosamente e sem permissão dos aliados, revogou os controles de produção que os vencedores impuseram sobre a indústria alemã [7]. Cada uma dessas medidas teve um impacto certamente muito maior do que um simples empréstimo financeiro.

Portanto, temos países exploradores que não se desenvolveram e países explorados que se desenvolveram. Mas, além disso, também existem nações que adotaram políticas imperialistas, mas que já estavam crescendo muito tempo antes disso. O exemplo mais claro é os Estados Unidos. Para muitos, a nação só enriqueceu por causa do imperialismo americano ao redor do mundo. E de fato, faz mais de um século que os estadunidenses iniciam ou entram em guerras mundo afora, fazendo uso dos mais diversos pretextos.

Porém, de sua independência em 1776 até 1898, os EUA adotaram uma política externa extremamente isolacionista. No começo, eles sequer tinham um exército permanente, e a sua marinha era muito fraca. As únicas guerras em que se envolveram nesse período foram nas suas fronteiras e no seu próprio território. E mesmo assim, foi o período mais próspero da história americana. Os impostos eram baixíssimos, e a interferência estatal na economia era mínima. Aquele que era um país agrícola com uma participação minúscula no comércio mundial virou, já em 1870, a maior economia do planeta. A nação mais livre do mundo, não coincidentemente, se tornou a mais próspera também. E tudo isso muito antes das primeiras políticas militaristas e intervencionistas, que só viriam a ocorrer no final do século XIX, após a vitória na guerra Hispano-Americana e aquisição das colônias de Cuba e Porto Rico.

ESCRAVIDÃO E O MASSACRE INDÍGENA

Muitos podem argumentar que estou desconsiderando a escravidão e o massacre indígena como promotores do desenvolvimento econômico. Não se pode negar a mancha que a escravidão foi na história da humanidade, porém não há nenhuma razão para crer que ela teria sido um fator relevante no crescimento americano. A região norte do país, com trabalho livre e assalariado, era muito mais desenvolvida e industrializada que a região Sul, onde predominava o trabalho escravo e a agricultura era a principal atividade econômica.

Sobre o massacre dos indígenas, é válido lembrar que os nativos sofreram perdas em inúmeros locais ao redor do mundo, seja no Brasil, no México, na Argentina, na Austrália, na Polinésia, no Peru, etc. Porém, alguns desses locais viraram países desenvolvidos, enquanto outros continuaram subdesenvolvidos. A ocupação de terras indígenas pode ter trazido benefícios para agricultores, colonizadores e mineradores, porém não se pode dizer que foi esse o diferencial que fez os Estados Unidos mais rico que as outras nações.

A Bélgica é outro exemplo. A sua primeira colônia foi o Congo, em 1877. No período de trinta anos compreendido entre 1847 e 1877, o PIB cresceu, em termos absolutos, cerca de 102%. Nos trinta anos seguintes após a aquisição colonial, até o ano de 1907, a economia teve um crescimento menor, de 85%. [8] O país já estava se desenvolvendo antes da aquisição de domínios coloniais, e não há razão para crer que os mesmos necessariamente serviram para impulsionar o crescimento econômico belga.

Em suma, existem países que exploraram e não se desenvolveram, assim como outros não precisaram da exploração para crescer. E ainda, aqueles que mesmo sendo explorados, cresceram drasticamente após suas independências. Mas também há nações que não foram exploradas, e que mesmo assim não apresentaram crescimento econômico significativo. Se o desenvolvimento europeu foi ao custo do impedimento do crescimento do resto do mundo, é de se estranhar porque a Libéria, a Etiópia e o Nepal, países que nunca foram colonizados, atualmente ocupam péssimas classificações em indicadores sociais e econômicos.

Nenhum país está determinado a ser pobre. No passado, os países ricos trilharam um caminho de respeito à propriedade privada, estabilidade jurídica e econômica, livre-mercado, empreendedorismo e inovação. Eles chegaram nesse patamar, porque aprenderam a aplicar melhor os seus recursos naturais e humanos. Foi isso – e não a exploração – que os tornou prósperos. As nações que seguiram esse caminho, também alcançaram um extraordinário nível de riqueza, pouco importando se já foram colônias ou não. O desenvolvimento social e econômico depende apenas de nós mesmos.


Leia os outros artigos da série: Parte I, Parte II, Parte IV.


Autor: Luciano Rolim é um empreendedor e investidor libertário, autodidata e escreve para o site do Clube Farroupilha todas as segundas-feiras.

As informações, alegações e opiniões emitidas no site do Clube Farroupilha vinculam-se tão somente a seus autores.


Referências:

[1] – http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u105652.shtml

[2] – http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/03/guerra-no-iraque-custa-mais-de-us-2-trilhoes-aos-eua-mostra-estudo-1.html

[3] – Michael Howard, Primeira Guerra Mundial, L&PM Pocket Encyclopaedia, 2010, página 30.

[4] – Angus Maddison, “Historical statistics of the world economy: 1-2008 AD”, disponível em www.ggdc.net/maddison/Historical_Statistics/horizontal-file_02-2010.xls

[5] – Cálculos do autor baseados nas séries históricas de Angus Maddison e no montante de ajuda recebida.

[6] – Idem.

[7] – http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1419

[8] – Cálculos do autor baseados nas séries históricas de Angus Maddison.