Civilização. Este é o tipo de ideia que pode ser compreendida apenas pelo seu oposto: a barbárie. Essa está por aí. Age livremente. Não demanda nenhum engenhoso arquétipo; sustenta-se por si mesma. É o estado primitivo das coisas; a natureza atuando em pleno vapor. Em contraste, temos a civilização. Destituída de liberdade. Não é capaz de sustentar-se. Com efeito, demanda a existência de seus artesãos-artistas. Aqueles que com sua criatividade, originalidade, graciosidade e perícia engendram e produzem os sustentáculos da civilização. Genuínas obras de arte que à medida que encantam devido sua meticulosa elegância, demonstram a fragilidade na qual servem de alicerce.

À medida que o organismo social se aprimora, surgem novas abordagens a respeito do processo civilizacional. Alguns elementos da nossa modern age dão origem a uma nova estirpe de intelectuais dentro das “classes falantes”, como as chamava Bourdieu. Sujeitos como Karl Marx e Georg Hegel, trazem consigo uma metafísica da história e sua consequente autodeterminação. Uma meta-história, por assim dizer. Essa hesitação metafísica busca analisar os fatos históricos e, então, extrapolar seu significado, causa e sentido. Apesar de suas divergências, ambos convergiam em um aspecto. A crença de que a história é um organismo vivo, que marcha em prol do progresso. O porvir é, portanto, sempre mais desejável. Nada merece ser conservado. Caminhar pela história é, para Hegel, “caminhar por ruínas”.

Apesar de seu caráter paradoxal, vestígios dessa crença delirante ecoam mais fortes do que nunca até mesmo em mentes que à Hegel desconhecem. Sobretudo a mente progressista. Segura de que a civilização que vive e desfruta é tão espontânea e imediata quanto a selva, acaba a concebendo ipso facto como rudimentar.  Os valores, tradições e ideais no quais o mundo civilizado é sustentado não são passivos de dignificação. Com efeito, é no seu modus operandi desconstrucionista que, subalternando a sociedade à desvairada crítica corrosiva de todos os seus elementos, é revelado seu temperamento deveras niilista e autodestrutivo. Não reconhecem o caráter artificial, frágil e quase inverossímil do labor de milênios, que em um piscar de olhos pode desvanecer-se, a partir do instante que é sujeito à pequenos experimentos, similares àqueles feitos pela criançada no jardim de infância. Quando a mente progressista ataca a família, o mercado e a religião, ataca sine qua non a civilização ocidental. Isto é, busca aprimorar os frutos de um pomar cortando suas raízes. Aí descortina-se a sua vulgaridade. A nossa condição como civilização é como a de um homem preso em um lamaçal de areia movediça que, quando destituído de prudência, acelera sua própria deglutição.

A civilização, quanto mais avança, mais árdua e problemática se torna. Seus problemas, mais obscuros e laboriosos. A Crise dos Mísseis de outubro de 1962 serve de evidência. Em cenário de Guerra Fria, uma civilização marcada por seu proeminente avanço tecnocientífico e material, por um triz evita o acionamento do seu self-distruct button. Isto é, quanto maior o progresso, maior o perigo. Esse fato não implica uma rejeição do mesmo. Apenas que, como disse certa feita Roger Scruton, “é mais fácil destruir do que conservar”. Toda civilização que, à medida que avança, esquece suas bases fundantes carrega em si a semente de sua própria destruição. As grandes sociedades, como aponta Ortega y Gasset, “feneceram pela insuficiência de seus princípios”. Não foi o homem da antiga polis ateniense que fracassou, mas seus princípios.  Esse hiato entre o progresso de uma civilização e seus princípios é uma doença que aumenta à medida que carece de remédio. E o que seria esse? A plena consciência de suas bases fundantes; seu alicerce. Sem isso, é questão de tempo para que o Leviatã da barbárie devore tudo que é digno de conservação.


Autor: Gabriel B. Huppes é estudante de Ciências Econômicas e escreve para o site do Clube Farroupilha quinzenalmente aos sábados.

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